Ombira y Ongombe O-O

Em língua Umbundo (Angola) Ombira Y Ongombe significa Vale dos bois. Este era o nome por que era conhecido o lugar escolhido pelos padres católicos da Congregação do Espírito Santo, para nele instalarem aquela que foi a primeira Missão Católica do Huambo. Os padres acabaram por ser expulsos em 1910, para no mesmo lugar ser fundada a cidade de Huambo, também designada Nova Lisboa entre 1928 e 1976. Curiosamente, a antiga igreja da Missão feita de pau a pique no lugar de Ombira Y Ongombe, e que os padres haviam abandonado recentemente, acabou por servir de Hotel aos inúmeros convidados presentes à cerimónia da fundação, em que foi servido um faustoso banquete a expensas do CFB. Aqui encontrará uma breve história dos primeiros cem anos da urbe fundada por Norton de Matos, e projectada por alguns dos mais eminentes arquitectos portugueses sobre o plano geral do Coronel Carlos Roma Machado

Ombira y Ongombe, aqui nasceu a cidade do Huambo

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Esta é uma página de apontamentos para uma breve história da presença portuguesa no planalto central de Angola, em particular no território que serviu de base à futura urbe de Huambo, cuja fundação marca decisivamente um novo rumo para Angola nos mais diversos domínios, sendo a cidade criada por portaria de 8 de Agosto de 1912, desde logo como cidade, e assim fundada solenemente, no lugar de Ombira Y Ongombe, em 21 de Setembro do mesmo ano por Norton de Matos, recém-chegado às altas responsabilidades de Governador-geral de Angola.
Ombira Y Ongombe (grafia utilizada por Monsenhor Alfred Keiling, que seguimos) é um “museu” de história sobre esses acontecimentos, os que o precederam e os que se lhe seguiram, revelados pelas fontes históricas que aqui se reproduzirão

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Fonte: clique na foto

I

Todas as histórias começam por “era uma vez…” A de Huambo, não!

A história desta cidade africana fundada pelos portugueses no século XX é muito recente, e inicia-se com um confronto entre dois mundos, entre si desconhecidos: o africano e o europeu. Esse encontro é, para cada um, uma descoberta. Para ambos, uma disputa entre o passado e o futuro. Para os africanos, nessa luta sem tréguas iniciada a sul do rio Niger, surgem novas forças no confronto entre os ossomas e os seus adversários tribais. Agora, são as alianças com os povos europeus quem determina o vitorioso-o-novo-ocupante-do-território, sendo a escolha do aliado ditada mais por razões conjunturais, e egoístas, do que o resultado de opções genuínas do povo. Entre a hegemonia da cultura europeia e das suas instituições, e a cultura africana banto, na sua heterogeneidade, plúrima, de sociedade tribal. Entre as crenças, os mitos, as superstições, e a razão. Entre o primitivo e o civilizado, entre o antigo e o moderno. A luz e as trevas. A Europa e África nuca mais serão, a partir d’então, as mesmas!

Bem poderia ser que assim como Portugal celebra como festa nacional a epopeia dos seus descobrimentos, enquanto o mundo conhece a primeira aldeia global, Angola devesse celebrar a sua descoberta, aquilo que para ela era oculto e passou a ser conhecido.

O encontro de duas civilizações tão diferentes não pode ter beneficiado apenas uma, que justifique que apenas uma comemore esse momento tão ímpar na história da humanidade e que marcou tão decisivamente o futuro dos anos que se seguiram ao século XV.

A Descoberta e a Fundação de Angola pelos portugueses é um assunto persistentemente indesejado pelas elites políticas do poder em Angola, para quem Angola nasceu fruto do empenho dos  movimentos de libertação, da luta armada e dos sacrifícios inflingidos a portugueses e angolanos, e nunca devolução de território pelos portugueses, mas reconquista, pois os livros de histórias, a partir de 75, ensinam assim, e nunca ensinaram de outra maneira desde então, o que faz presumir o pior: Angola poderia ser a primeira potência africana do século XXI.

No patamar do território dominado por réis banto, sobas e seus seculos ( a maioria se tratava de sociedades primitivas, onde o esclavagismo e o comércio dominavam sob o controlo do poder político e guerreiro), recém chegados àquelas paragens, no decurso dos séculos XIV e XV, entre-cruzam-se os interesses  sacrificados de duas civilizações: a africana e a europeia.

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Os velhos sobas e todos os magnânimos réis e rainhas dos territórios ocupados pelos portugueses perderam o controlo dos respectivos territórios porque o poder militar do adversário se impôs, a lei das armas triunfante sobre a  diplomacia, como sempre sucede quantas vezes contra a vontade do Povo subjugado.

Não é, porém, inédita, a ocupação do planalto central de Angola, no século XV e seguintes, por estrangeiros.

Algum tempo antes, os antigos habitantes destas regiões, aborígenes, a maioria hotentotes ou bosquímanos, são expulsos para sul e os seus territórios ocupados por grupos banto, que no caso específico do planalto central de Benguela, terão descido da bacia do rio Cuanza.

É muito provável que este movimento migratório de conquista tenha surgido ainda mais a norte, e o Rio Zaire, na fronteira norte de Angola, fosse apenas mais uma barreira natural a superar, na sua milenar migração desde o rio Niger, tudo dependendo da escala de tempo em observação.

Vatwa (Ova-Kwandu ou Kwisi e Ova-Kwepe ou Kwepe), Koisan, e Kwis (hotentotes) que perduram no sul de Angola, e no norte da Namíbia, são na sua maioria descendentes naturais daqueles cujas terras vieram a ser ocupadas pelo invasor banto, que os expulsou.

Impelidos para sul, partem os aborígenes em fuga do muito provável destino de escravos, capturados para servir os proprietários de escravos, e aqueles que os adquirem para serem comerciados (o tráfico de escravos é a página mais negra da história do homem, e é uma falsidade imputar a sua autoria unicamente aos europeus: como actividade económica que foi, tal só era possível com vendedores e compradores.

Se alguém comprava para vender ou dar outro fim, então é porque ao mesmo tempo alguém vendia o que era seu ou de outro: não há galinhas, se não houver ovos, mas também não haverá ovos se não houver galinhas, como diria tio Jaime, o velho porteiro do prédio da Guedal, na Rua Mariano Machado, ovimbundo amigo do autor destas linhas.

A presença dos banto em tão vasto território implicou permanentes disputas das terras ocupadas, dando origem a migrações de grupos tribais em todos os sentidos.

Diz Monsenhor Keyling, no seu livro 40 anos de África: … Antes da chegada de Vyié e Nateya, mãe de Cangombe e de Luimbe, era esta terra ocupada por gente do sul, chamada ” vaucumbi “. Mas, em face dos novos invasores tiveram de se retirar e foram-se estabelecer nas margens do Cuito e do Cubango inferior.

II

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Portugal justifica internacionalmente a sua ocupação no direito legítimo reconhecido pelas nações europeias  e pelos Estados Unidos, na Conferência de Berlim, que se realizou nesta cidade de 15 de Novembro de 1884 a 26 de Fevereiro de 1885, e onde se impõe a ocupação efectiva como marco fundamental para o reconhecimento  dos direitos de potência colonizadora que os portugueses, senhores de além-mar, dos mares e das terras distantes, desde o século XV, reivindicam.

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Tratou-se da ocupação de um território delineado a traços tão largos quanto ligeiros se atentarmos às implicações , sobretudo na geografia social do continente africano e que representaria um virar de página, nos idos do século XIX.

Fica claro que um dos principais objectivos era dar guarida aos interesses dos europeus, condicionados pelos ingleses e pela sua pretensão de construírem a linha férrea que um dia ligará o Cairo ao Cabo.

A história das sociedades negras que então assentam no território regista um impacto  que revela de modo transparente a fractura entre o seu presente-passado e o devir.

A sociedade primitiva de raiz tribal é absorvida por novos padrões culturais, desde o século XV, conhecendo um novo rumo no despontar do século XX, e que se arrastará até aos anos setenta.

Ao mesmo tempo que crescem todos os indicadores económicos impulsionados pelas políticas de fomento ultramarino do estado colonial, sobretudo a partir da década de 40 do século XX, muitos naturais se vão destacando em várias áreas da nova realidade social. Crescem os movimentos intelectuais onde germinam gerações de elites negras e brancas formadas num sistema de ensino de nível europeu, conviventes nas circunstâncias que o colonialismo gerou e que os tornou construtores de um amplo movimento a favor da descolonização, que recebe o apoio espontâneo da maioria da população.

Um movimento genuíno que não corresponde ao caminho traçado por aqueles que viriam a pegar em armas para derrubar o estado colonial, expulsar os portugueses e proclamar a independência conquistada pelas armas, num trajecto abruptamente iniciado pela revolução de Abril de 74 em Portugal.

A angolanidade, como ficou conhecido este movimento social, ficou registada para sempre na arte e na literatura, e ainda hoje permanece veiculada pela língua portuguesa e pelos padrões estéticos de raiz africana mergulhada nas influências de Portugal e Além-mar. Ernesto Lara Filho, Geraldo Bessa Victor, Alda Lara, citando 3, continuam a ser autores angolanos de referência apesar de os seus livros terem misteriosamente desaparecido das bibliotecas públicas e privadas, como durante o tempo do fascismo para quem eram indesejáveis.

Desse movimento, com fluxos de múltiplas direcções e impulsos de diversa etiologia, nasce a acção revolucionária dos partidários da guerrilha, que conduzem Angola a uma guerra que dura 13 anos com Portugal, visando a independência, e começando por uma chacina. Este é um movimento maioritariamente negro, pois apesar da presença de alguns brancos, a mulher de Agostinho Neto, e alguns mestiços, incluindo antigos estudantes do Huambo, como é o caso de Lúcio Lara, a maioria do povo parece preferir uma solução pacífica, fundada numa autodeterminação plena, uma independência conquistada à Paz, que Portugal, aliás, vinha sendo sistematicamente compelido a promover pela comunidade internacional. As soluções possíveis adivinhavam-se para quem acompanhava o movimento gerado pelos estudantes da Casa dos Estudantes do Império, sediada em Lisboa, a que pertenceram a maioria dos intelectuais que integraram o movimento para a autodeterminação de Angola.

III

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Um século antes, em Berlim, Portugal ficara a sonhar com o seu Mapa Cor de Rosa, que seria um pesadelo para todo o o mundo a começar e a terminar nas pretensões do velho aliado autor do ultimatum britânico a Portugal de 1890, decidido que estava a unir o norte ao sul do velho continente, de um só passo, por linha férrea, o que a presença portuguesa no território explorado por Serpa Pinto, Brito Capelo e Roberto Ivens em longas caminhadas por terras africanas, e cuja ocupação Portugal estava animado a encetar, constituía um indesejado obstáculo.

Em contrapartida,  essa conferência fez nascer Angola e Moçambique e os demais territórios ultramarinos africanos delineados ex tunc nas suas novas fronteiras políticas, desenhadas a lápis, régua e esquadro por quem em nada atendeu à mais elementar regra da física segundo a qual nunca o azeite se junta à água, concentrado que estava com a linha de ferro (o metal, pois claro) entre o Cabo e o Cairo.

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De um ápice se concentram no mesmo território povos que a extensão territorial de África e o domínio territorial haviam dividido, num processo histórico que tem agora início e durante o qual se há-.de proclamar, por cada uma das potências colonizadoras, a unidade do seu território nacional ultramarino, o que é insuficiente para apagar as ancestrais fronteiras humanas, responsáveis pelos acontecimentos que se seguiram, no caso das colónias portuguesas, à revolução de Abril de 1974 que em Portugal estabeleceu a democracia e o fim do estado colonial.

Não obstante, o traçado físico dessas fronteiras, levada a cabo pelos serviços cartográficos militares dos respectivos países, foi um processo muito demorado.

Com efeito, se, no plano formal, as cartas geográficas inspiradas em Berlim enunciam o limite do território dos novos estados africanos, na realidade só ao fim de muitas negociações, pressões políticas e diplomáticas, e algumas querelas políticas e tremeliques militares, é que os novos territórios conhecem as suas fronteiras territoriais finalmente estabelecidas e marcadas no terreno.

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Foi assim que só em pleno século XX os limites territoriais de Angola ficam efectivamente definidos.

De entre os notáveis que contribuíram para a delimitação territorial das fronteiras de Angola, levada a cabo pelos dos serviços cartográficos criados nos finais do século XIX, destaca-se, já em pleno século XX, o ilustre Gago Coutinho, entre outros eminentes geógrafos portugueses, acompanhados por equipas de indígenas que asseguram a mão de obra necessária e o transporte de meios e equipamentos adequados à missão, calcorreando centenas de quilómetros a pé, ou montados em bois, cavalos ou camelos.

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IV

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Dois anos depois da implantação da República Portuguesa, em 5 de Outubro de 1910, Norton de Matos parte para Angola.

É nomeado governador geral de Angola em 20 de Abril de 1912 e toma posse em Junho do mesmo ano.

Pouco mais de 3 meses depois, em 8 de Agosto de 1912, exara a seguinte portaria que põe em prática a solução que haviam encontrado para a ocupação colonial do território do planalto central de Angola :

“Portaria provincial

Hei por conveniente determinar que nas proximidades do forte de Huambo, sito no planalto de Benguela, seja criada uma povoação que se denominará Cidade de Huambo.

As autoridades e mais pessoas a quem o conhecimento e a execução desta determinação competir assim o tenham entendido e cumpram”

Nota: Este é o texto integral na menção de Norton de Matos, in Memórias, com pequenas diferenças relativamente ao texto publicado oficialmente :

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Mais tarde, escrevendo as suas memórias, revê um texto que já antes havia publicado num jornal da época, e esclarece-nos, o venerável estadista, sobre os acontecimentos que se seguiram, nesse ano de 1912, e que culminaram no dia 21 de Setembro:

“… Antes da sua inauguração, a que tencionava assistir, era necessário marcar bem o nosso domínio naquela região.  Vários diplomas legislativos foram por mim publicados. Um criando a circunscrição administrativa de Huambo, outro o seu primeiro administrador, Artur Soromenho, a quem Angola muito deve, e outro finalmente, de 8 de Agosto de 1912 criando a «cidade do Huambo».

Quando um mês depois saltei do comboio inaugural na estação do Huambo, tive de reconhecer que as críticas que me fizeram eram justas sob alguns aspectos. Olhando em roda, na vasta planura, apenas avistei além da ultra modesta casinha, destinada à estação do caminho de ferro, a pequena casa desmontável de madeira, que tinha adquirido para habitação do administrador e da sua família, para sede da administração e de outros serviços da circunscrição e da Comissão municipal, constituída por colonos que viviam a alguns quilómetros de distância. Mais ao longe paredes em derrocada sobre as quais tinham assentado, meses antes, folhas de zinco, e que indicavam o local de uma missão religiosa que resolveu deslocar-se para outra região. O resto era o sertão.”

V

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Carlos Roma Machado, Coronel, funcionário superior dos Caminhos de Ferro de Benguela- C.F.B., é outra figura chave, e, digamos, incontornável, nos acontecimentos que viriam a determinar a escolha do local da nova cidade assim como o seu traçado geral.

A sua importância fica anda patente no facto de as opções futuras do Gabinete de Urbanização Colonial, em particular as do Arquitecto Aguiar a quem se deve a consolidação da planta da cidade, manterem a estrutura geral do traçado primitivo de Roma Machado.

Referindo-se à escolha do lugar onde a cidade nasceu, Carlos Roma Machado, inspirado no relato de outros portugueses conhecedores do território, em particular, Paiva Couceiro,  escreve o seguinte:

Discutida entre mim e o sr. Mariano Machado a urgência de estabelecer-se o local para a grande povoação, e porventura cidade, na borda atingida do planalto, resolvemos em  obediência à citada portaria, ir escolher o local dessa povoação, a que foi agregado o sr. Luís Patacho, chefe militar do Huambo, constituída pelo sr. Mariano Machado, por parte do C.F.B. e pelo sr. António da Costa, representante do comércio de Benguela.

Andamos desde o Cuma, a cavalo, durante 90 quilómetros, até atingirmos o forte do Huambo. Ali escolhemos três locais, como os melhores, a saber: o do Forte, o do alto do Caululo, onde o sr. António Costa ia montar uma sucursal, e o da Missão do Huambo, onde estivemos hospedados e onde se encontravam os reverendos padres Keiling e Blank. O último local, que se denominava em língua indígena Ombira y Omgombe, que quer dizer a «cova dos bois», foi o preferido por todos nós.

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Escolhida a Ombira y Ongombe, comecei pouco depois o trabalho taqueométrico. Disse-me então o padre Blank, que os missionários tinham decidido sair dali para o Sambo, por não lhes convir continuar perto do C.F.B. e da acumulação de gente, muita de menos bons costumes, que tais obras sempre trazem, tanto mais que não haviam podido obter a concessão do terreno da sua actual missão. Em vista disso, avaliei as construções de mataca da Missão em três contos, por constituírem bom abrigo para o começo da futura povoação, mas creio que até hoje nunca esta importância foi paga aos missionários.

Carlos Roma Machado, Coronel

O texto completo, acompanhado com o primeiro projecto da cidade, dado à estampa em 1926:

Razões que determinaram o seu estudo

Em Julho de 1910 achava-me em Loanda com o Sr. engenheiro Costa Serrão e o sr. Mariano Machado.

Era Governador Geral então o Sr. General Roçadas, e como o avanço do C. F. B. era enorme, indo já a montante do Cubal, urgia começar a pensar-se a sério nos centros de população de europeus, ao longo dessa importante linha de penetração, que estava quási a subir a gigantesca escada de acesso ao planalto de Benguela, composta dos degraus de Sahoa, Co-luteva, Catengue, Sollo, Cubal, Ganda, Lepi, Caala e Huambo, galgando a diferença de nível total de 1719 m acima do nível do mar, em 426 quilómetros de percurso. Por isso o Sr. Roçadas ordenou, por portaria, a formação de uma comissão de que me deu a presidência, para o estudo e recolha desses necessários futuros centros de população.

Tínhamos já marcado as povoações do Cuma, Lepi, Chicanda e Caala, e urgia escolher o local para a do último degrau a subir – o do planalto do Huambo.

Primeira viagem ao local

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Discutida entre mim e o sr. Mariano Machado a urgência de estabelecer-se o local para a grande povoação, e porventura cidade, na borda atingida do planalto, resolvemos em obediência à citada portaria, ir escolher o local dessa povoação, a que foi agregado o sr. Luís Patacho, chefe militar do Huambo, constituída pelo sr. Mariano Machado, por parte do C.F.B. e pelo sr. António da Costa, representante do comércio de Benguela. Andamos desde o Cuma, a cavalo, durante 90 quilómetros, até atingirmos o forte do Huambo.

Ali escolhemos três locais, como os melhores, a saber: o do Forte, o do alto do Caululo, onde o sr. António Costa ia montar uma sucursal, e o da Missão do Huambo, onde estivemos hospedados e onde se encontravam os reverendos padres Keiling e Blank. O último local, que se denominava em língua indígena Ombira y Omgombe, que quer dizer a «cova dos bois», foi o preferido por todos nós.

Escolhida a Ombira y Ongombe, comecei pouco depois o trabalho taqueométrico. Disse-me então o padre Blank, que os missionários tinham decidido sair dali para o Sambo, por não lhes convir continuar perto do C.F.B. e da acumulação de gente, muita de menos bons costumes, que tais obras sempre trazem, tanto mais que não haviam podido obter a concessão do terreno da sua actual missão. Em vista disso, avaliei as construções de mataca da Missão em três contos, por constituírem bom abrigo para o começo da futura povoação, mas creio que até hoje nunca esta importância foi paga aos missionários.

Começo do trabalho de campo

Encetei o trabalho taqueométrico, formando da área total um rede de polígonos que levantei, fazendo, naturalmente, ao mesmo tempo, o plano cotado em três etapas de cerca de 15 dias cada uma, auxiliado sucessivamente pelos apontadores srs. Abreu Castelo Branco, Nunes de Sousa e Futcher Pereira. Quando acabava este trabalho, era proclamada a República Portuguesa.

Restava projectar a implantação da cidade sobre a planta acabada de desenhar. Nesta situação sofri as naturais consequências da mudança de regime, empenhando-se o comércio de Benguela em que eu fosse demitido. Contudo o sr. Romeiras de Macedo, então governador de Benguela, comunicou-me que a já referida portaria relativa à comissão, de que eu era presidente, não tinha razão de ser agora, e que ia, por não haver outro técnico, ser agregado à actual para continuar o serviço do projecto e implantação da cidade do Huambo. Pensei em demitir-me, mas não o fiz, porque seria o mesmo que ceder o trabalho já feito a outro que, talvez levado pelos inimigos do C.F.B. , que eram muitos, dificultasse o andamento deste, e da cidade que era necessário, em todo o ponto, ajudar a seguir para diante, seguindo instruções de Lisboa, em vista do grande serviço que a linha prestava, abrindo à exploração o grande planalto, embora contra os interesses directos e locais do comércio de Benguela, o que seria compensado de futuro.

Aprovação do projecto da cidade do Huambo

Poucos dias depois foi substituído o sr. Romeiras de Macedo pelo sr. Ivo Ferreira, como governador interino e uma das primeiras coisas que fez, ao ver que eu continuava o meu trabalho de campo, foi ir com a nova comissão ao local e tive de o acompanhar indicando tudo que já tinha projectado. Acompanhavam o chefe militar do Huambo, o sr. Luís Patacho, o chefe das obras públicas sr. Carlos Peres, pelo sr. Corte Real, negociante da Ussinda e pelo médico em serviço no Huambo, sr. Dr. Thadeu. Vistos o local e o projecto, encarregou-nos de o concluir, recolhendo eu a Benguela com tudo ultimado 15 dias depois.

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Completa a planta, algumas semanas depois, foi enviada ao governador do distrito, que era ao tempo o sr. Gois Pinto, que a remeteu com um bem elaborado relatório ao Governo Geral, sendo aprovada pelo sr. Norton de Matos, sem restrição alguma.

Entregámos ao chefe do Huambo, que era agora o sr. Soromenhouma cópia já aprovada com a assinatura do Governador Geral, e um «marion» ao sr. Condutor Peres, que a piquetou no terreno, o que lhe foi fácil por ainda ao tempo existirem todas as minhas estacas do levantamento. Por esse tempo, veio em visita ao local o sr. Director da Agrimensura da Província, Major de Estado Maior Mimoso Guerra, que verificou ser viável a planta e, segundo me disse, em muito pouco a modificou. Fomos acompanhar este senhor ao local e desligámo-nos deste serviço para o qual estavam agora nomeadas oficialmente pessoas de maior competência.

A cidade do Huambo treze anos depois de inaugurada

A cidade do Huambo está hoje ligada ao Lobito por uma estrada de 310 quilómetros de extensão que, passando por Quipeio, Luimbale, Balombo, Bocoio, leva 7 horas a percorrer em automóvel, levando o comboio, actualmente, 2 dias a percorrer a distância que separa as duas cidades.

Em face destas indicações, examinando a planta e comparando o local em que estas edificações estão, vê-se que a planta primitiva foi, na generalidade, respeitada, a pesar de todas as críticas ao projecto, feitas mesmo depois de aprovado pelo Governador Geral, e oxalá que os actuais e futuros habitantes não se tenham de arrepender um dia das modificações que fizeram, em pequena parte da implantação das casas, nos terrenos a que acima referi, terrenos que foram estudados o mais em harmonia possível com as indicações do que mais moderno havia ao tempo, em projectos e higiene de cidades na América e na Europa.

1925, Carlos Roma Machado, Boletim GC, 1926)

Este artigo do nobre coronel tem um valor histórico invulgar. Muito nos diz sobre o modo como a cidade foi projectada, no plano ideal e no plano material. Se a Norton de Matos se deve a vontade política de construir uma cidade no planalto central de Angola, exarando a portaria que a criou, é Roma Machado e a sua equipa, nomeada pelo Governo para esse efeito, quem é responsável por a cidade ter nascido no mesmo lugar onde os padres do Espírito Santo haviam permanecido até à notícia de que aquele lugar seria atravessado pelos caminhos de ferro, o que ditou o abandono, por  Monsenhor Keiling e seus companheiros, que partem à procura de um novo lugar para a Missão do Huambo, vindo a escolher as margens do rio Quando, onde foi reinstalada, e ainda permanece.

VI

Cerca de um mês após a publicação da portaria que havia criado a cidade, Norton de Matos toma as primeiras providências: encarrega o colono Trindade Moura de ir ao Huambo montar uma casa de fibro-cimento, destinada a ser a residência do administrador Castro Soromenho e sede dos serviços administrativos.
Essa casa foi, segundo Trindade Moura, o que seguimos, montada na Avenida Norton de Matos, no mesmo lugar onde viria a nascer em 1914 o edifício mandado construir por Castro Soromenho, e que após múltiplas reconstruções, sobreviveu ao tempo, sendo hoje uma biblioteca pública.
Este facto lança por terra a tese de que a cidade foi fundada em 8 de Agosto de 1912, e não em 21 de Setembro do mesmo ano. pois nessa data ainda nem sequer se sabia onde seria montada a primeira casa.

Este é o testemunho desse colono:

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Nota: 1. Este testemunho de Trindade Moura ajuda a compreender que a famosa Pauling Town a que se referia Norton de Matos, situava-se, afinal, no Lépi, e não na cidade de Huambo, como muitos pensam e debalde sustentam. Ler mais2. o grego Dáskalos a que se refere Trindade Moura foi um dos mais antigos residentes do Huambo, tendo deixado prole com o mesmo nome, os quais ocupam um lugar de destaque na galeria de personalidades notáveis de Huambo

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Trindade Moura deixa bem claro que pernoitou no Lépi, mais precisamente no Posto sob o comando de Óscar Monteiro Torres, que, como ele próprio se identificou, era o comandante da polícia ao longo da construção. Como ele dirá também, só no dia seguinte apanhou o comboio para o Huambo, numa viagem com uma particularidade que ele próprio explicará! Uma nota: se o posto do comandante principal era no Lépi, é de admitir que tal fosse justificado por uma razão especial, relacionada com o Lépi, que veremos qual é, ou quais são!

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É agora a vez de Trindade Moura afirmar que no sítio onde o comboio o deixou, não havia vivalma, de onde se pode extrair que se houvesse em dois quilómetros quadrados uma alma, ele teria dado conta, e não deu, salvo o pobre cabo-verdeano que deve ter apanhado um susto logo às quatro da manhã

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Só havia europeus na Quissala. Se o lugar onde nasceu a cidade de Huambo fosse conhecido por Pauling Town, ou a tal Pauling não tinha brancos, ou a cidade de Huambo era na Quissala, pois aí seria Pauling Town! Absurda é, pois, a hipótese de a cidade de Huambo ser no mesmo lugar também conhecido por Pauling Town !

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1. Trindade Moura recebeu na Quissala todas as informações de que precisava para cumprir a sua missão. 2. O Colégio das Irmãs era então situado na Avenida Norton de Matos, onde funcionou até à inauguração do novo edifício da autoria do arquitecto Vasco Regaleira.

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Avenida Norton de Matos, muito provavelmente no princípio de 1914, quando não havia sido iniciada a construção do novo edifício municipal promovido por Castro Soromenho, e que viria a ser erguido no mesmo lugar onde Trindade Moura construíra a casa desmontável que se vê na foto

VII

O plano geral de urbanização de Nova Lisboa do arquitecto João Aguiar é publicado em 1952 no seu livro L’Habitation dans les pays tropicaux. Este plano é realizado sobre o projeto do coronel Carlos Roma Machado, de 1910-1912, ampliado por proposta do arquiteto José Cabral da Costa e Silva. Em 1928 os arquitectos  Pereira da Silva e Dias Antunes realizam uma renovação desse plano, que culmina no plano de Aguiar

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Planta do arquitecto João António Aguiar, do Gabinete de Urbanização Colonial.

VIII

A criação da cidade de Huambo é fruto do estado colonial sonhado pela monarquia portuguesa em cumplicidade com os parceiros europeus e americano.

Um sonho real, mas posto em prática com expressão assinalável pelos republicanos saídos da revolução de 5 de Outubro de 1910.

O sonho africano (dos europeus entenda-se) ganha com a nova república novos ventos e é responsável pela dinamização que viria a transformar-se no verdadeiro motor de desenvolvimento de Angola, ao longo de todo o século XX.

O colonialismo, alavancado pela revolução republicana, fomenta a presença portuguesa em África, e o desenvolvimento económico da colónia. O traçado da linha de ferro de capitais ingleses impõe o incremento de centros populacionais ao longo do seu curso.

Mas é também uma revolução que lhe põe fim: o 25 de Abril de 1974.

A Revolução dos cravos entrega a administração dos antigos estados coloniais aos representantes dos novos países, escolhidos, por imposição liderada pelo MPLA, de entre os movimentos de libertação, com exclusão de quaisquer outros partidos ou correntes ou movimentos políticos nascidos antes ou depois da Revolução de Abril. Com um preço elevado: hoje, os partidos em Angola são os antigos movimentos de libertação, formado pelos que decidiram pegar em armas fazendo a guerra, primeiro contra os portugueses, e depois contra os “irmãos” adversários políticos. Não existem, em Angola, partidos emanados da vontade popular, mas apenas os ressurgentes do modelo independentista militar que caracterizou uma luta de libertação assente no terror e nas tácticas de guerrilha.

Para a cidade de Huambo esta mudança é uma tragédia.

A guerra que assola o país deixa-a aniquilada. Ferido o seu povo. Expulsos os filhos daqueles que a fundaram e a ergueram com o suor de uma vida, a maioria partiu e nunca mais voltou. Estes vivem espalhados pelo mundo,  e entre eles há gente de todas as cores que nunca esqueceram o seu torrão natal, o que fazem questão de festejar em reuniões colectivas que juntam periodicamente dezenas e centenas de angolanos antigos.

Entretanto, na África do Sul, Mandela, o grande Madiba, descendente de Khoisan (aqueles cujas terras os bantos conquistaram) é o Presidente de todos os sul-africanos e rejubila, e com ele o país, a conquista da Taça de Rugby pela África do Sul, e promove o reconhecimento nacional da memória dos pioneiros da colonização. A África do Sul torna-se um estado multirracial sendo reconhecida a secular presença dos europeus que a colonizaram.

Antes, em Angola, os movimentos revolucionários recebem de Portugal, graças ao 25 de Abril de 1974, a independência do território, e, expulsos os portugueses e os que com estes conviviam, entregam-se a uma guerra fratricida de décadas, o que fez recuar os indicadores económicos e sociais para níveis inimagináveis, ao mesmo tempo que milhares de mortos apodrecem a céu aberto. Os filhos dos residentes de Angola que tiverem nascido nos dias que se seguiram ao 25 de Abril português só conhecerão a paz quando tiverem atingido 30 anos. As dificuldades geradas durante essas décadas terão efeitos devastadores na sua educação, e na sua saúde, dos que permanecem vivos tendo em conta as taxas de mortalidade, em particular a infantil, que põe Angola no mapa das preocupações do mundo. Para sempre ficou a memória daqueles que partiram, e dos que perderam a vida,  numa desproporção medonha, pois em trinta anos foram mortos mais angolanos do que os que perderam a vida nas naus do Brasil ou para S. Tomé.

As 3 décadas que se seguiram à revolução da Liberdade em Portugal representarão para a maioria dos angolanos que permaneceu no território uma longa pena que jamais o estado colonial alguma vez infligiu. A sociedade em vias de desenvolvimento em 74 está subnutrida em 2000, 25 anos depois de Portugal ter abandonado o território, e os brancos, e suas famílias muitas vezes nativas de angola, sido expulsos.

O sonho de reconstruir a cidade de Huambo dos horrores por que passou durante esse tempo está agora sendo concretizado, depois que a guerra terminou com o assassinato de um dos contendores.

Sobre a velha cidade nasce agora uma nova urbe com o nome primitivo que lhe deram os portugueses.

Sobre a antiga toponímia da cidade cultivando a memória de portugueses ilustres de Angola, surgem novos nomes, muitos deles imperceptíveis, como Ho Chi Min e outros ( a exemplo do que aconteceu também com alguns nomes da toponímia portuguesa), a maioria sem qualquer ligação ao Huambo. No lugar da velha estátua de Norton de Matos erguido no seu orgulho de estadista a quem a cidade deve a vida, está agora a estátua de Agostinho Neto, em pose genuflectida, o descanso de um guerrilheiro, feito herói depois de morto.

A memória daqueles que viveram uma vida a erguer as cidades não é um motivo de orgulho nacional, como por exemplo é na África do Sul a dos grandes pioneiros colonizadores.

Dos escombros em que a tornaram, ressurge com novo esplendor, tão bonita e engalanada como desde o primeiro dia em que o General Norton de Matos a fundou, certamente que na presença do espírito do velho Leão, Wambo Calunga, junto à sombra da secular mulemba da sua embala, a quilómetros de distância.

Ombyra Y Ongombe saúda os seus leitores, e desafia-os a explorar e a partilhar as publicações do nosso museu virtual de história da cidade de Huambo

O planalto de Benguela no início do século XX





Huambo é uma cidade com passado, com presente e, se os homens deixarem, com futuro

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2 thoughts on “Ombira y Ongombe, aqui nasceu a cidade do Huambo

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Ombira y Ongombe O-O

Em língua Umbundo (Angola) Ombira Y Ongombe significa Vale dos bois. Este era o nome por que era conhecido o lugar escolhido pelos padres católicos da Congregação do Espírito Santo, para nele instalarem aquela que foi a primeira Missão Católica do Huambo. Os padres acabaram por ser expulsos em 1910, para no mesmo lugar ser fundada a cidade de Huambo, também designada Nova Lisboa entre 1928 e 1976. Curiosamente, a antiga igreja da Missão feita de pau a pique no lugar de Ombira Y Ongombe, e que os padres haviam abandonado recentemente, acabou por servir de Hotel aos inúmeros convidados presentes à cerimónia da fundação, em que foi servido um faustoso banquete a expensas do CFB. Aqui encontrará uma breve história dos primeiros cem anos da urbe fundada por Norton de Matos, e projectada por alguns dos mais eminentes arquitectos portugueses sobre o plano geral do Coronel Carlos Roma Machado

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Manuel Peralta Godinho e Cunha

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Em língua Umbundo (Angola) Ombira Y Ongombe significa Vale dos bois. Este era o nome por que era conhecido o lugar escolhido pelos padres católicos da Congregação do Espírito Santo, para nele instalarem aquela que foi a primeira Missão Católica do Huambo. Os padres acabaram por ser expulsos em 1910, para no mesmo lugar ser fundada a cidade de Huambo, também designada Nova Lisboa entre 1928 e 1976. Curiosamente, a antiga igreja da Missão feita de pau a pique no lugar de Ombira Y Ongombe, e que os padres haviam abandonado recentemente, acabou por servir de Hotel aos inúmeros convidados presentes à cerimónia da fundação, em que foi servido um faustoso banquete a expensas do CFB. Aqui encontrará uma breve história dos primeiros cem anos da urbe fundada por Norton de Matos, e projectada por alguns dos mais eminentes arquitectos portugueses sobre o plano geral do Coronel Carlos Roma Machado

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